serjao Marchinhas JF 2014 – Serjão

Márcio Gomes

A marchinha de carnaval surgiu há longínquos 115 anos, quando Chiquinha Gonzaga compôs, em 1899, a música “Ô Abre Alas” para o cordão carnavalesco Rosa de Ouro, do bairro carioca do Andaraí. O ritmo era inspirado nas marchas populares portuguesas, partilhando com elas o compasso binário das marchas militares, embora mais acelerado, as melodias simples e vivas e as letras picantes e irreverentes, cheias de duplo sentido, repletas de crítica social e política.

Apesar do grande sucesso de Abre-Alas, somente a partir dos anos vinte a marcha começa a se consolidar como gênero musical, com composições de Eduardo Souto, Freire Júnior e Sinhô. Em 1930, Almirante gravou “Mamãe, eu quero”, composição de Jararaca e Vicente Paiva, que se transformou em uma das marchinhas de maior sucesso de todos os tempos. No carnaval de 1932, Lamartine Babo lançou “O teu cabelo não nega”, que também fez um grande sucesso. Já o ano de 1935 foi marcado pela marcha “Cidade Maravilhosa”, de André Filho, que em 1960 tornou-se a marcha oficial da cidade do Rio de Janeiro.

A marchinha de carnaval fez-se presente também na história musical de Juiz de Fora. Antes do advento das Escolas de Samba, a cidade contava com os ranchos carnavalescos, que existiram até 1971. Entre os principais ranchos lembramos “Quem são Eles?”, “Rouxinóis”, “Não Venhas Assim que Não te Arrecebo” e “Rivais da Primavera”. Em 1934, a recém-criada Escola de Samba Turunas do Riachuelo dava seus primeiros passos cantarolando a marchinha “Bailarinas Nós Somos”, de Remo Toschi. Nos anos seguintes, diversos músicos da cidade compuseram marchinhas para o carnaval, participando dos concursos promovidos pelas rádios Industrial e PRB-3. Podemos citar Alfredo Toschi e Zoquinha com “Triste Retorno”; Paulo Pires, com “Montanhesa”, “E Ela Não Vem”, “Puxa Devagar”, “Bicho Papão” e “Sultão Sabido”; Oceano Soares com “Maria Boa Vida” e “Eu Quero o Original”; Orlando dos Reis com “Mania de Mulher”, “Urubu” e “Meu Consolo”; Izidro Índio do Brasil e Waldir de Barros com “Satélite”.

Essa fase áurea da marchinha de carnaval durou cerca de quarenta anos, com as emissoras de rádio, principal veículo de comunicação, desempenhando papel importantíssimo. A partir de 1971, ano em que o Salgueiro desfilou com o samba “Festa para um Rei Negro” (Pega no Ganzê, Pega no Ganzá), do compositor Zuzuca, foi inaugurada a fase dos sambas-de-enredo de refrão curto e melodia fácil. Com isso, a partir da grande aceitação popular do chamado “sambão”, a marchinha de carnaval desapareceu de vez dos meios de comunicação. Mas mesmo restrita a algumas manifestações saudosistas, a marchinha, com suas melodias fáceis, suas letras picantes e bem-humoradas nunca desapareceu da memória popular. E com a inexistência de concursos de músicas de carnaval e o desinteresse das gravadoras, o povo limitava-se a cantar os grandes sucessos do passado.

Com o retorno do carnaval de rua no Rio de Janeiro, a Fundição Progresso resolveu promover em 2006 um concurso nacional de marchinhas carnavalescas. Essa valorização das marchinhas de Carnaval já vinha sendo feita desde o início da década de 1980 pela cidade paulista de São Luiz do Paraitinga que, na busca de um carnaval alternativo, realiza desde aquela época o seu Festival de Marchinhas de Carnaval. Juiz de Fora também aderiu a esse esforço, realizando seus concursos desde 2011. Outras cidades como Belo Horizonte, Cataguases, São João del Rei, São Paulo, Taubaté, Balneário Piçarras, Sabaúna, Florianópolis, Imperatriz, Rio das Ostras, Teresina, Vitória e até Salvador também vem realizando seus concursos, sempre com o objetivo de valorizar a música carnavalesca, seus compositores e intérpretes.

A realização de concursos em todo o Brasil deixa claro que a marchinha de carnaval está viva, que há compositores do gênero espalhados por todo o país e que não lhes falta inspiração. Para ter-se uma ideia, basta dizer que apenas no concurso da Fundição Progresso, em suas nove edições, foram inscritas 8.655 composições, de todos os estados brasileiros, sendo que 863 músicas participaram da seleção para o carnaval 2014. Todavia, apesar desse cenário amplamente favorável à retomada das marchinhas, ainda surgem questionamentos: por que, apesar da farta produção, essas novas composições ainda não caíram no gosto popular? Por que ainda são cantados os grandes sucessos do passado?

Em primeiro lugar, entendo que as composições de Lamartine Babo, João Roberto Kelly, Braguinha e outros de igual importância serão cantadas enquanto existir o carnaval de rua: são músicas que já passaram pelo crivo do tempo, caíram no gosto popular e assim permanecerão. Quanto às composições mais recentes, temos uma safra de ótima qualidade, cuja aceitação popular depende de sua ampla divulgação. Para isso, é extremamente relevante o registro fonográfico dessas músicas em CD, o que, no caso de Juiz de Fora, já vem sendo feito pela Funalfa com o lançamento dos CDs com as músicas finalistas. Isso tem sido feito também por outras cidades, como o Rio de Janeiro, onde a Fundição Progresso sempre grava os CDs com as músicas daquele ano. A internet também é uma poderosa aliada na divulgação dessas composições, podendo ser citado o caso da música “Baile do Pó Royal”, vencedora do concurso de Belo Horizonte neste ano, com dezenas de milhares de visualizações. Mas entendo que a aceitação das novas composições pelo público é consequência de um processo lento e complexo, que exige a participação de diversos agentes, entre compositores, intérpretes, instituições culturais e imprensa. Não deve haver pressa: os primeiros passos foram dados e nossos criadores estão a pleno vapor, com muita criatividade, talento e inspiração. Evoé, Momo!