Bloco do Beco

Desfile 2015. Foto Bloco do Beco

BECO, UM MOVIMENTO

Por Rodrigo Barbosa

“No bar do Brega surgiu a música “Beco do Balthazar”. Da música surgiu o “Bloco do Beco” e do bloco o “Bar do Beco”. Esta é a forma simplificada e modesta que o compositor Armando Aguiar, o “Mamão” encontrou para resumir o Beco, em seu depoimento no livro “Assuntos de Vento”, de Márcio Itaboray, lançado em 2001. É muito pouco e está muito longe de traduzir aquele que foi (e, incrivelmente, continua sendo) um dos mais expressivos movimentos culturais que Juiz de Fora vivenciou.

Estávamos em 1974 quando o Brega’s Bar, depois Sonoro’s Bar, virou Bar do Beco. Seria apenas mais um dos incontáveis botequins das galerias de Juiz de Fora se não fosse habitado pela genialidade e pelo espírito de liderança do Mamão, o mais importante e talentoso compositor de samba da história da cidade e, como se não bastasse, um incansável agitador cultural, inquieto e criativo.

“Olha quem vem lá ! É a turma do Beco, cantando pra não chorar”. O refrão da música (que virou nome de bloco, de bar e de movimento cultural) repercutia o ambiente daquele tempo, auge da repressão política e das restrições à liberdade de expressão. A palavra resistência era muito utilizada para definir o que significava fazer arte em tempos de ditadura. E a turma do Beco, cantando pra não chorar, no abrigo da galeria Phíntias Guimarães, resistia.

Foi em torno de música que o movimento se formou. Violões, cavaquinhos, flautas, surdos, pandeiros, chocalhos e tamborins estavam sempre a postos para afugentar os fantasmas e celebrar a alegria. Por conta do ambiente político, de algumas ligações pessoais fundamentais, do espírito aglutinador do Mamão, da energia criativa que teimava em sobreviver à censura ou sei lá porque circunstâncias mágicas e misteriosas, o Bar do Beco reuniu, em torno de suas mesas e garrafas, gente das mais várias origens e formações, formando um dos movimentos mais democráticos e abertos de que se tem notícia – sem perder de vista a qualidade do que ali se produzia.

Em seu “Assuntos de Vento (Breves Histórias da MPB em Juiz de Fora)”, Márcio Itaboray chama atenção para um dos aspectos desta bela história: o Bar do Beco como ponto de aproximação entre a boemia de Juiz de Fora e os estudantes universitários. Citando uma das diversas viagens da turma do Beco para shows e participações em festivais, ele flagra, “no mesmo banco do ônibus”, Nancy (a já eterna porta-bandeira) e Ivan Barbosa, então presidente do DCE”. Junto com os jovens universitários e o vigor de seus projetos culturais, vamos encontrar no Beco intelectuais, jornalistas, políticos, poetas, artistas plásticos, em diária convivência criativa com sambistas, músicos, damas da noite, malandros.

Mamão escala o time, de forma bem humorada: “verdadeiros artistas, políticos analistas, anarquistas, kardecistas, budistas, umbandistas, sambistas, frasistas, vigaristas e bota ista nesta lista. E as mulheres ? Doutoras, professoras, cantoras, carinhosas, atenciosas, dadivosas e cheirosas, algumas nem tanto. Todas e todos absolutamente de bem com a vida”.

A verdade é que, sem os riscos do exagero, o que houve de realmente importante na cultura de Juiz de Fora nestas últimas décadas foi “do Beco” ou passou por lá. A generosidade deste movimento sempre foi tanta que não há nenhum mistério em “ser do Beco”: basta ir até lá. Todos são bem vindos, Mamão vai dividir com você uma cerveja gelada, dali a pouco vão aparecer uns tira-gostos da Nancy (a porta-bandeira quituteira), de repente alguém desencapa um instrumento e, pronto: você já é do Beco !

É claro que tudo isto é ainda mais importante e de relevante valor porque a “Central Beco de Produções” (como a turma do Beco gosta de chamar os seus projetos) está sempre produzindo – e com talento, muito talento. A música, especialmente o samba, é o núcleo central. A obra de Mamão, quase toda gerada ou burilada no Beco, tem a estatura dos maiorais do samba brasileiro, gente do quilate de um Geraldo Pereira e um Synval Silva (para citar dois juizforanos), Cartola, Nélson Cavaquinho, Paulinho da Viola. O sucesso nacional (com “Tristeza Pé no Chão”, na voz da saudosa Clara Nunes, em 1972) não tirou Mamão de Juiz de Fora e do Beco e, com isso, tantas outras pérolas da canção popular brasileira continuaram sendo geradas aqui. Ao lado de Mamão, o Beco reuniu Sarrafo, Jaú, Cézar Itaborahy, Marquinho, Jorge Alves e tantos outros no seu “time” de compositores. Márcio Itaboray e os universitários do grupo “A Pá” também freqüentaram a galeria (e os outros tantos endereços que o Beco teve depois), misturando referências musicais mais modernas ao samba tradicional (Márcio e Mamão têm várias parcerias). Textos de João Medeiros Filho, Roberto Medeiros, Jeremias Ferraz Lima, Hegel Pontes, e tantos outros vestem as melodias, sob medida. Nos meses que antecedem os carnavais, o Beco torna-se uma espécie de referência na produção dos sambas-enredo das diversas escolas locais, além, é claro, de seu momento maior: o samba do Bloco do Beco, que é cantado com irreverência e descompromisso, como deve ser o verdadeiro carnaval, por milhares de pessoas nas noites de sexta-feira pelas ruas do centro da cidade (*). O Beco é abrigo de tantos cantores e cantoras, músicos e instrumentistas, que citá-los conduz, inevitavelmente, o pecado da omissão por esquecimento. Sueli Costa, nossa compositora maior não morava mais em Juiz de Fora, em 1974, mas já “era do Beco” antes dele existir, colocou a marca do Beco dentro de sua obra (como em “Nancy Porta-Bandeira”, por exemplo) e continua ancorando por lá nas suas (felizmente) muitas visitas a Juiz de Fora.

A produção musical intensa é associada a uma especial qualidade para a promoção e a difusão cultural. Quando comandou uma casa noturna, Mamão levou à cena o show “Beco do Balthazar”, concebido no Beco, que reuniu mais de uma dezena de artistas e ficou em cartaz por 20 dias consecutivos, até hoje um tempo recorde em Juiz de Fora. São freqüentes as caravanas culturais do Beco, presentes em encontros e festivais pelo Brasil afora, sempre levando música da boa junto com a alegria de gente como Novak, Carioca, Bargento e trazendo reconhecimento e prêmios para Juiz de Fora. Nas mesas do Beco nasceu e foi desenvolvido o mais ambicioso projeto de pesquisa e resgate da história da MPB em Juiz de Fora, que tornou-se volumoso e detalhado livro de Carlos Décio Mostaro, João Medeiros Filho e Roberto Faria de Medeiros, lançado em 1977. São vários os projetos de discos e CDs que registram aspectos diferentes do “movimento Beco”.

Mas, o Beco não é só música. É o território de intelectuais, escritores, poetas, artistas plásticos, gente como Dormevilly Nóbrega, Rangel Coelho (sempre que vinha a Juiz de Fora), José Carlos de Lery Guimarães, Carlos Décio Mostaro, José Carlos Barbosa Daltemar Lima, Paulinho Pinto, Dnar Rocha, Eliardo França. Um ponto de convergência que, de tão representativo, tornou-se passagem obrigatória para personalidades da cultura brasileira em suas visitas a Juiz de Fora: e, assim, suas meses abrigaram Vinicius de Moraes, Paulinho da Viola, Sérgio Cabral, Albino Pinheiro, Ziraldo, Jaguar, etc. Nomes importantes da música brasileira volta e meia são “seqüestrados” pelo Mamão e aparecem em Juiz de Fora, mais precisamente no Beco, para uma canja: Noca da Portela, Walter Alfaiate, Monarco, Nei Lopes, a turma do choro… Um magnífico exemplo de como “uma música, que virou bloco, que virou bar” ultrapassa os limites de seu tempo e seu espaço, alcançando status de marco cultural numa cidade tão rica neste campo, como Juiz de Fora.

Um movimento de arte, construído em torno de uma indiscutível liderança e com uma fantástica capacidade de atrair os mais importantes criadores de Juiz de Fora. O Bar já deixou há muito a galeria, alguns de seus artistas já nos deixaram, os tempos são outros, mas o Beco permanece, especialmente graças à tenacidade e ao permanente “estado inventivo” do Mamão. Preservá-lo, manter acesa a chama criativa deste movimento e difundir sua arte para novos públicos é um dever de todos os que amam Juiz de Fora e a cultura brasileira. Não protegemos, através de tombamentos e outros processos, nossos prédios e monumentos ? Precisamos ser inteligentes e originais para proteger o Beco e deixar que seu ambiente continue contaminado de talento, emoção e alegria; de versos, acordes e imagens. E, assim, permitir que a cidade continue se (re)conhecendo nele.

(*) O Beco é tão aberto e acolhedor que permitiu a dois garotos de 18 anos cometerem a ousadia de compor o samba do Bloco, em 1980. Eu e meu parceiro Ronaldo Itaboray jamais vamos nos esquecer da emoção de ver a multidão cantando nosso samba na avenida Rio Branco, numa estréia sob as bençãos do mestre Armando Aguiar.

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