carnaval_2013 O período momesco se aproxima e, mais uma vez, é hora de ouvirmos vozes se manifestando sobre ascensão e queda do carnaval juiz-forano: são carnavalescos, imprensa, dirigentes de escolas de samba, foliões em geral. Muitos daqueles que gostam e vivem essa grande festa popular querem dar sua contribuição e eu também quero participar dessa saudável discussão.

Lembro-me muito bem que, ainda garoto, lá pelo final da década de 1960, a meninada da minha rua improvisava tamborins, surdos e ganzás e descia da pracinha do Cruzeiro para a rua Halfeld e, no melhor estilo “bloco de sujos”, fazíamos nossa batucada tocando e cantando as canções carnavalescas que ouvíamos nas rádios locais. As ruas São João, Batista de Oliveira, Marechal Deodoro e avenida Rio Branco formavam um quadrilátero dentro do qual a folia era espontânea, saudável e permanente. Os blocos de sujos, os blocos do “eu sozinho” e até blocos com alguma organização ocupavam esse espaço e músicas locais davam a tônica. O saudoso Bar Tropical, na esquina da galeria Azarias Vilela com a Rua São João, frequentado por nossos grandes compositores, era o quartel-general do samba e lá de dentro ecoavam nossos clássicos, como “Se Eu Fosse Feliz” (1949), de Djalma de Carvalho, Juquita e B.O, “Filosofando” (1948), de Ernani Ciuffo, “É Carnaval” (1953), de Francisco Tavares e Toninho Rabeca, entre outros. Mais tarde, o hoje extinto Bar do Beco, na galeria Phintias Guimarães – chamada de galeria da Mineira – era também uma referência para quem gostava de Carnaval. Tivemos também, na década de 1970, uma fase áurea dos desfiles das escolas de samba, quando Turunas do Riachuelo, Feliz Lembrança, Juventude Imperial, Unidos dos Passos, Castelo de Ouro e Real Grandeza fizeram desfiles marcantes na avenida Rio Branco e deixaram na nossa memória composições marcantes como “O Circo” (1974), de Gilson Campos e G. Souza, “Exaltação ao Rio São Francisco” (1977), de Walter de Paula, João Leonel e Zezé do Pandeiro, e “Canto à Estrela” (1976), de José Carlos, Dilermando e Chico Saratoga. Atualmente, vivemos um momento de vacas magras, em que as preocupações têm sido as de possamos ter novamente, em nossa cidade, um carnaval pujante. A questão é complexa e não há como exauri-la neste espaço, mas alguns pontos podem ser abordados.

Um deles é o discurso, que entendo equivocado, de que não há mais carnaval em Juiz de Fora porque as pessoas viajam para a praia; vez por outra, alguns chegam a defender a ideia de um carnaval fora de época. Isso me parece a eterna discussão sobre quem nasceu primeiro, se o ovo ou a galinha, visto que aí cabe o argumento contrário, o de que talvez as pessoas viajem porque a cidade não oferece atrativos para quem gosta de carnaval. Existe, sim, muita gente que permanece na cidade e que fica procurando por opções de folia. E não encontrando, pega seu carro e dá um pulo em algumas cidades próximas para apreciar um autêntico carnaval de rua. Entendo que quem permanece em Juiz de Fora no carnaval tem, como cidadão que paga seus tributos, direito a participar dessa festa milenar sem ser obrigado a se deslocar para outra cidade. Atualmente a Funalfa desenvolve um projeto digno de elogios, que é o Corredor da Folia, congregando artistas locais e de fora da cidade. O público frequenta e aplaude esses eventos, demonstrando que existe interesse em algo que é feito com planejamento e qualidade. Mas parece que nossa fundação cultural vai, aos poucos, comprando a ideia de que nossa sina é o pré-carnaval: afinal, por que tanta oferta de shows e eventos na semana anterior ao carnaval e nenhuma iniciativa do mesmo porte durante o período de folia? Quem consultar o Mapa da Folia que está na página da Prefeitura de Juiz de Fora poderá observar que, depois que a Banda Daki passa, nosso carnaval fica limitado a iniciativas de blocos nos bairros mais afastados e aos desfiles das escolas de samba na Avenida Brasil. O centro da cidade transforma-se em um verdadeiro deserto, sem o menor indício de que estamos no período carnavalesco e quem aprecia essa festa sente-se órfão…

Pergunto a vocês: não seria bom caminhar pelo centro da cidade e respirar um clima de carnaval? Será um equívoco meu imaginar que é possível um Calçadão decorado, com bares abertos e grupos locais tocando sambas e marchinhas, numa parceria da iniciativa privada com o poder público? Quem sabe isso não estimularia o surgimento dos blocos improvisados, que são a cara do verdadeiro carnaval?

Como disse, este é um assunto para muitas laudas e muitas horas de conversa. Mas quero deixar aqui minha expectativa: a de que possamos reverter esse quadro e dar mais importância ao carnaval do que ao pré-carnaval, retomando uma história que já foi muito bonita.

Evoé, Momo!