ciufo por Márcio Gomes

Ernani Ciuffo, o Filósofo do Samba

Entre os grandes compositores de samba de nossa cidade está Ernani Ciuffo. Nascido em Juiz de Fora no dia 18 de dezembro de 1919, ele residia na Avenida Sete de Setembro e estudou no Instituto Granbery. Aos 14 anos de idade, viu surgir na casa da família Toschi, na Rua Silva Jardim, a escola de samba Turunas do Riachuelo, oriunda do bloco carnavalesco Feito com Má Vontade. Ciuffo passou a participar da agremiação: formado em Contabilidade, foi tesoureiro da Turunas durante a presidência de José Oceano Soares, até que este renunciou ao cargo em 1955 devido a questões político-partidários. Ciuffo foi também um desportista, tendo sido jogador de futebol do Sport Club Juiz de Fora e integrante da equipe de tênis do Clube D. Pedro II. Mas foi como compositor que ele é lembrado aqui, através de composições de letras profundas e melodias elaboradas, embora nunca tivesse estudado teoria musical, limitando-se a tocar gaita de ouvido. Um exemplo é o samba Filosofando, cantado pela Turunas do Riachuelo no carnaval em 1948, que figura entre as composições mais marcantes do cancioneiro juiz-forano, e cuja letra segue:

“Há na vida do homem
Bem estranhas passagens
Hoje a cantar
Recebendo homenagens
Amanhã pode vir a ser
Um vencido a se lamentar
Relembrando sem prazer
Motivos que o fazem chorar

Quem conhece o dever
Querendo não se desvia
Muito embora a sofrer
Suporta com energia
Que seria do mundo
Se tudo fosse maravilha?
Não teria valor
Um pouquinho de alegria…”

Outra composição marcante de Ciuffo é “Convite Amigo”, composta para o carnaval de 1951 e que foi reapresentada no 1º Festival Oficial de Juiz de Fora em 1968.

“Venham todos, venham comigo
Fazer coro neste samba que eu fiz
É um consolo amigo
Pois quem canta está sempre feliz
Pelo menos aparentemente
A tristeza nunca está presente

Deixem de lado os seus problemas
Venham pro samba cantar
Um pouquinho só de alegria
Faz a nossa alma se exaltar
A vida é curta sabemos
Tristeza nem quero lembrar
Mas momentos como este
Amigos, vamos brindar”

Ciuffo faleceu em 1993, no dia 9 de fevereiro de 1993, ao submeter-se a uma tomografia em Belo Horizonte. Curiosamente, pouco antes de sua partida, ele deixou rascunhados os seguintes versos:

“Vai ser fácil me identificar
Quando eu chegar
Porque eu não vou ficar
Tão só no meu cantinho
Vou envolver a todos num abraço
E vão ouvir um pedaço
Do som do meu cavaquinho

Quando acontecer
Não quero ouvir dizer
Que eu era muito bom
E não devia morrer
Hoje eu sou só saudade
Só quero lembrar dos sambas que fiz
Pra me desabafar
Por isto nestes versos
Peço de coração
Se lembrar de mim faça uma oração.”

Das músicas compostas por Ciuffo, dezenove foram gravadas em CD e podem ser ouvidas em “Roger Resende canta Ernani Ciuffo, o Filósofo do Samba” e no CD que acompanha a monografia “Ernani Ciuffo, a trajetória de um músico”, escrita por Flaviana Polisseni Soares.