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Geraldo Pereira

Márcio Gomes

No dia 23 de abril de 1897, nascia no Rio de Janeiro Alfredo da Rocha Viana, mais conhecido por Pixinguinha, um dos grandes responsáveis pela construção da linguagem musical brasileira. Vinte e um anos depois, em 23 de abril de 1918, nascia em Juiz de Fora Geraldo Theodoro Pereira, que após mudar-se para o Rio de Janeiro em 1930 e iniciar sua carreira de compositor a partir de 1938, deu também importante contribuição para a música brasileira: ele se tornou o principal cultor do samba sincopado, um estilo de samba requebrado e brejeiro, típico dos bailes de gafieira. Esse tipo de samba surgiu a partir do momento em que as linguagens do choro e do samba se encontraram e deram origem na década de 1930 ao chamado samba-choro, de autores como Gadé, Walfrido Silva e Noel Rosa. Geraldo Pereira, então um adolescente, residindo no Morro de Mangueira e convivendo com nomes como Cartola e Aluísio Dias, que lhe ensinaram a tocar violão, passou a frequentar as rodas de samba que aconteciam na casa de Alfredo Português, pai adotivo de Nelson Sargento. Em 1939 teve gravado seu samba “Se Você Sair Chorando”, em parceria com Nelson Teixeira, cuja linha melódica, inovadora e original, chamou a atenção de Pixinguinha, responsável pela orquestração. A partir daí, Geraldo Pereira, paralelamente ao emprego de motorista do caminhão de limpeza urbana da Prefeitura do Rio de Janeiro, passou a atuar também como compositor, cantor e ritmista. Chegou inclusive, por intermédio de Herivelto Martins, a fazer pontas em três filmes. Suas músicas foram gravadas por importantes intérpretes da época, como Roberto Paiva, Moreira da Silva, Aracy de Almeida e Blecaute. Mas sem dúvida, seu principal intérprete foi Cyro Monteiro que, ao lançar em 1944 o samba “Falsa Baiana”, projetou de forma definitiva Geraldo Pereira como um dos grandes sambistas brasileiros.

Boêmio inveterado, frequentador dos cabarés da Lapa, um apaixonado pelas mulheres, principalmente pela mulata Isabel, Geraldo tirava de sua própria vida a matéria-prima para suas composições, que sempre falavam de malandragem, amor e traição. A qualidade de suas composições fez com que seu nome entrasse para a posteridade, com gravações até mesmo no período da bossa nova, quando o samba estava em baixa. A gravação de sua música “Sem Compromisso” em 1990 por Chico Buarque alcançou grande projeção e muitas pessoas erroneamente pensam que Chico é o seu autor.

Juiz de Fora deve se orgulhar de ter sido o berço desse importante e genial compositor, elogiado por Pixinguinha e por Ary Barroso, o qual se declarou incapaz de compor sambas como Geraldo Pereira. Se é verdade que a filmagem por José Sette em 1999 de “O Rei do Samba” fez com que a cidade tomasse conhecimento da conterraneidade de Geraldo Pereira, também é verdade que os nossos artistas até hoje não se aprofundaram na extensa obra de Geraldo Pereira, que merece ser mais divulgada. Assim como a obra do também juiz-forano Synval Silva, nascido em 2011 e falecido em 1994, que chegou a ter várias músicas gravadas por Carmen Miranda, inclusive “Adeus Batucada”, um dos maiores sucessos da Pequena Notável. Sem falar naqueles autores que optaram por permanecer em nossa cidade e que foram inspiradores compositores, como Alfredo Toschi, Ernani Ciuffo, João Cardoso, Djalma de Carvalho, Nilton Cocada e outros mais.